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Um quarto para duas

Um blog, duas raparigas, um amor.

Um quarto para duas

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03
Set16

Charlie para totós

ana

Ser Charlie não é achar que todos os cartoons que o raio do jornal publica são maravilhosos. Estes últimos, sobre Itália, são só muito parvos, por exemplo. 

Ser Charlie é achar que ninguém, ninguém mesmo, tem o direito de entrar numa redação de um jornal, ou noutro sítio qualquer, e matar aquela gente toda, só porque não se gosta da merda do desenho que fizeram ou de alguma coisa que tenham dito.

Ser Charlie é isto. E ou se é, ou não se é. 

30
Ago16

Uk life

ana

Não emigrei para ganhar muito dinheiro e ter uma grande quantia acumulada no banco. 

Reviro os olhos sempre que me dizem "ai, isto aqui não é bom para viver, só é bom para ganhar dinheiro" ou "o importante é trabalhares muito para ter dinheiro". 

Eu não quero isso. Não quero matar-me a trabalhar para depois construir uma casa em Portugal e para ir em agosto para a terrinha. Não quero privar-me de nada aqui, só para esfregar na cara dos outros que aqui é possível enriquecer e em Portugal não. 

Desculpem, mas eu não sou esse tipo de emigrante. Nada contra, mas essa existência não serve para mim. 

Sim, emigrei também por causa do dinheiro. Trabalhava numa loja e os 300€ que ganhava nem para a puta da gasolina me chegavam. Mas não emigrei com o sonho de ter uma conta poupança e um Mercedes. 

Emigrei porque achei que seria possível viver melhor aqui. Porque acredito ser possível ter dinheiro para uma casa, para passear, visitar museus, comer bem e, daqui a uns tempos, poder ir ver o pôr do sol em Santorini. Vim para cá porque gostava de aproveitar a minha vida e usufruir daquilo que gosto. 

Vim porque gostava de estudar cá, de tentar fazer um estágio num grande museu, de ter uma carreira. Vim porque acho que aqui a cultura, a arte e a educação não são consideradas uma "distração", mas sim algo importante é necessário. 

Quero viver aqui como os daqui vivem (sem a parte de gastar muito dinheiro em pubs e comida pré feita), não como um emigrante vive. Essa merda de passar a vida entre o trabalho e a casa não serve para mim. Assim como trabalhar dias inteiros, sem fins de semana ou dias de folga. Que agonia. 

Eu emigrei para ter uma vida normal, apenas. 

 

[É verdade que tenho trabalhado como o caralho e tenho tido pouco tempo para lazer, mas isto no início não é fácil e, por muito que diga que o dinheiro não é o mais importante, preciso dele para viver. Estou na fase de orientar as minhas finanças. Depois disso, espero ter outro tipo de vida. Se não tiver, faço as malas e volto para Portugal ou mudo para outro sítio qualquer, garanto.] 

14
Ago16

Uk life - saudades

ana

Estou bem aqui. Cansda, sem tempo, mas sinto-me feliz. Tenho pouco tempo para os meus pensamentos tóxicos, para os meus dramas de merda. Os dias correm, rotineiros, com poucas novidades ou alterações. Um dia vou cansar-me disso, eu sei. Por agora, sabem-me bem dias assim, sem sobressaltos. 

Penso muitas vezes no mar, na praia, na pele salgada e no sol quente. É do que mais sinto saudades. Não sinto falta da comida portuguesa, suporto bem a saudade da família e dos amigos. Penso muito no meu gato e faz-me falta a companhia de um animal de estimação. Mas o mar, o mar azul a perder de vista, tranquilo, perfeito... Disso tenho muitas saudades. 

 

Vejo e revejo estas fotos, só para matar saudades. 

 

06
Ago16

Coisas minhas, constatações, dúvidas e tal

ana

Até gostava de escrever aqui alguma coisa interessante, mas a minha vida resume-se numa palavra: trabalho. 

Já não me lembro da sensação de ter tempo para mim. Tenho dois part time. Durmo, como e vou trabalhar. 

Trabalho num hotel, durante a manhã e depois, às seis, vou limpar as instalações de uma empresa. Sim, limpo sanitas, cozinhas, mesas e mais o que for preciso.

O quão glamorosa é a minha vida, gente. 

 

18
Jul16

Coisas minhas, constatações, dúvidas e tal

ana

Se há gente que me irrita são os "velhos do Restelo", sempre desconfiados. 

"Antigamente é que era bom";

"Antes, as pessoas não eram assim";

"Os computadores é que fizeram esta onda de violência". 

Oh, antigamente era tudo uma maravilha. Nao havia net, nem nada desses luxos. As pessoas não perdiam tempo com tecnologia, televisão, computadores, só tempo de qualidade passado com as pessoas que amavam.

Também era muito bom quando cada qual tinha a sua carroça e burro, essa patetice que inventaram dos carros, que nojo, que estupidez fazer uma viagem em duas horas, quando antes se demoravam cinco. 

E as crianças que brincavam na rua e não viam televisão. 

E os telemóveis, esse bicho papão do século xxi. Estar sempre contactável, aqui ou na China, onde é que já se viu, que coisa má. 

Os serões à luz das velas, a jogar à sueca. Ir para a cama cedo e procriar muito. 

E quando se morria de peste, não haviam medicamentos e os médicos eram só para alguns? Era tão bom. Isto agora de diagnosticar cancros em fases iniciais, de levar vacinas e prevenir doenças, só modernices inúteis. 

Não há dúvida, antigamente é que era! 

Oh Filipa, mas não achas que antes as relações pessoais eram mais verdadeiras, mais palpáveis, que a sociedade era melhor, mais unida? 

Hum, não, não acho. 

Acho que o mundo evoluiu e ainda bem. Acho que só quem é muito parvo é que anula o contacto directo com pessoas e o substitui completamente por relações "virtuais". Acho que quem quer pode usufruir de forma equilibrada de tudo aquilo que a tecnologia nos dá. Acho fascinante poder fazer compras na net, mas se me apetecer passar uma tarde inteira a ver lojas. Assim como acho maravilhoso que as crianças, para além de poderem brincar na rua (não me digam que isso já não existe, porque é mentira), tenham acesso a ocupações lúdicas, e menos lúdicas, através de um tablet ou do ecrã de uma TV. 

Como tudo na vida, é preciso equibrio. O mundo em que vivemos hoje é dez vezes melhor do mundo em que os nossos avós viveram. 

Antes também haviam guerras, também se matava só porque sim, por um pedaço de terreno ou porque se estava bêbado. Também se maldizia e criticava a vida dos outros, só não era no facebook. As crianças eram egoístas, não partilhavam a única côdea de pão que tinham e faziam bulling, que não se chamava isso, a outras crianças. 

Não sejamos hipócritas.

Não foi o avanço tecnológico, civilizacional, social e afins que nos tornou pessoas horríveis, focadas cada qual no seu umbigo, alheadas dos outros e do bem que se pode fazer ao próximo. Sempre o fomos e continuaremos a ser. É triste, mas é verdade.